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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012


Vinícius Mendes de Oliveira

Pastor em Vila Velha - ES


“SÊ PROPÍCIO A MIM, PECADOR”

Deus espera dos que se aproximam dEle humildade e desejo sincero por salvação.

                

INTRODUÇÃO

 A parábola do fariseu e do publicano (Lucas 18:9-14) apresenta um emblemático quadro de um homem que se perde e de outro que se salva. Os dois destinos opostos são determinados pelo senso de pecaminosidade que os personagens demonstram. O fariseu era presunçoso e arrogante enquanto que o publicano era dependente e humilde. Jesus contou essa parábola porque nela encontram-se prefigurados perdidos e salvos. O Senhor queria ensinar que a salvação é gratuita e não pode ser adquirida por obras humanas. Assim, de forma muito simples e direta, a parábola do fariseu e do publicano ensina como o ser humano pode ser salvo e adverte a todos do perigo de procurar a salvação fora dos méritos de Cristo.

Portanto, é necessário que façamos uma análise com atenção dessa bela parábola de Jesus a fim de extrairmos dela lições espirituais que nos ajudem a não cometer os erros do orgulhoso fariseu e aprendermos com o humilde publicano o jeito certo de nos aproximarmos de Deus.

A ATITUDE DO FARISEU

Há alguns detalhes na oração do fariseu que evidenciam sua confiança e justiça próprias como também desprezo aos outros. Em primeiro lugar é importante lembrar que tanto a oração do fariseu como a do publicano são ambientadas no pátio do Templo, onde, pela manhã e pela tarde, por conta dos sacrifícios que se ofereciam nesses horários, o povo se reunia para adoração pública. O verso onze revela o fato de que, embora houvesse ali muitas pessoas, o fariseu se destaca do grupo, se posta sozinho, em pé, e faz uma oração, provavelmente audível. Essa atitude de separação do fariseu motiva-se pelo fato de que ele cria que a presença de pecadores ali poderia contaminá-lo. É provável que o ícone da impureza “dos outros homens” seja o publicano que também está por ali.

Dessa forma, com sua oração, o fariseu orgulha-se de sua condição deixando patente a contaminadora presença daquele miserável publicano. O fariseu, em sua oração, usa o nome de Deus como vocativo, mas o foco de sua oração não está em Deus, mas em si mesmo. Ele dá graças não por aquilo que Deus é ou faz, mas pelo que ele, o fariseu, não é e pelas boas obras que pratica. Ele dá graças a Deus pela justiça própria que ostenta, fazendo uma contundente comparação de si mesmo e suas virtudes com os outros, especialmente o miserável publicano cheio de pecados.

O Senhor disse que essa parábola foi contada porque “alguns confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (Lucas 18:9). Nesse resumo, vemos o problema central que determinou a perdição do fariseu: justiça própria e consequente desprezo aos outros. Essa é a fórmula da perdição. A verdade é que confiança e justiça próprias mascaram a realidade de que a pessoa está perdida, desviando seus olhos do Salvador, focando nas imperfeições de quem está à volta. “Nossa única segurança está na constante desconfiança de nós mesmos e na confiança em Cristo” (Parábolas de Jesus, p. 155).

Justiça própria é resultado de uma errônea compreensão a respeito de como somos salvos. A salvação é um presente de Deus. Não é adquirida ou mesmo mantida pelas obras humanas, sobretudo porque estas, muitas vezes representam o que se passa no exterior do homem e são incoerentes com o coração. Significa dizer que através da disciplina humana alguém pode deixar de fazer coisas ruins e praticar boas coisas, mas não ter o problema do egoísmo interno resolvido. Na verdade, o senso de justiça própria leva as pessoas a fazerem as coisas certas pelos motivos errados. Esse desvio leva à desobediência a Deus, já que, quem passa determinar o que é certo ou errado não é mais o Senhor, mas o próprio coração humano.

É possível nesse momento propor uma relação entre a desastrosa oração do arrogante fariseu e a oferta de Caim, que levou vegetais para a adoração, porque era agricultor. Deus não havia pedido isso, mas era isso que seu coração pedia para entregar. É importante lembrar que o sistema levítico previa ofertas de alimentos vegetais, mas estas não eram para expiação, pois “sem derramamento de sangue não há remissão” (Hebreus 9:22). As ofertas de vegetais, ou primícias, eram prescritas para que o ofertante pudesse expressar gratidão a Deus (Deuteronômio 26:10), mas não serviam para expiação. É interessante notar que o fariseu inicia sua oração se referindo a uma suposta gratidão: “Ó Deus, graças te dou...” da mesma forma que Caim, que apresentou uma oferta dos frutos da terra usada para demonstrar gratidão. Isso indica que Caim se aproximou de Deus não sentindo sua necessidade de salvação, mas “apresentou sua oferta como um favor feito a Deus, pelo qual esperava obter a aprovação divina”( PP. 72). Foi exatamente isso que o fariseu fez. Ele “agradeceu” pelo privilégio de não ser pecador – logo, não carecido da graça de Deus, segundo seu pensamento – e listou suas obras a fim de que elas fossem aplaudidas por Deus e pelos homens, colocando-o num patamar superior aos outros.

A oferta de Caim e a suposta gratidão do fariseu desviaram o foco de ambos do propósito de Deus para o ser humano. Os dois acharam que poderiam fazer alguma coisa para agradar a Deus. Estavam exercendo uma religião pagã, tentando comprar o favor do Senhor. O que eles não sabiam é que Deus fez o homem propício a Si por Seu próprio ato de amor ao entregar Seu filho para morrer, substituindo a morte dos pecadores. Era isso que Deus queria ensinar a Caim e Abel; era isso que estava sendo ensinado no pátio do Templo quando o fariseu e o publicano foram até lá com o propósito de orar (Lucas 18:10)

ATITUDE DO PUBLICANO

De repente a cena muda de foco na parábola. Jesus concentra-se no outro personagem: o publicano. A postura desse homem como também sua oração resumem a atitude de uma pessoa que vence na vida espiritual. O verso treze revela que ele também ficou afastado das outras pessoas, mas seu motivo era totalmente contrário ao do fariseu. Enquanto este se orgulhava de sua condição, o coletor de impostos não se considerava sequer apto para estar próximo às demais pessoas. Seu pecado está patente. Ele era exatamente aquilo de que havia sido acusado. Não havia como esconder. Ele estava ali em busca de misericórdia.

O mais importante, na verdade, era o que estava acontecendo no Templo naquele momento; o que motivava aquela reunião de oração. Aquela era a hora do sacrifício. Quem se dirigia ao pátio do Templo naquele momento visualizaria uma cena estranha e profundamente simbólica. No centro do pátio, havia o altar de sacrifícios, os adoradores então se aglomeravam em torno desse móvel e podiam ver um cordeiro despedaçado sobre o altar e o sangue escorrendo do corpo inerte do animal. Logo o animal seria queimado e uma fumaça densa tomaria conta do ambiente. O cordeiro esquartejado no altar representava a morte substitutiva de Cristo por conta de nossos pecados. Essa cena era a evidência de que o pecado é real na vida de todo ser humano e de que todos precisam dessa morte substitutiva.

O que determinou a vitória do publicano foi contemplar essa cena, reconhecendo seu pecado. O texto diz que ele não levantou os olhos aos céus. O fariseu absorto em si mesmo não pode contemplar o sacrifício, tampouco entender seu significado. Na verdade não se sentia necessitado daquele sacrifício. Estava trazendo sua própria oferta, como fez Caim.

O texto diz que o publicano, por outro lado, clamava pela propiciação divina. Reconhecia que a Lei de Deus exigia sua morte e que seu pecado causava ira em Deus. Contudo, clamou para que aquele sacrifício oferecido fosse também por ele. A sua oração é uma síntese do Salmo 51, no qual Davi reconhece seu terrível pecado, clama por misericórdia e por transformação.

O publicano orava batendo no peito. Esse gesto só era usado em ocasiões de extremo desespero como o luto, por exemplo. Os judeus piedosos costumavam cruzar as mãos sobre o peito, mas bater no peito não era corriqueiro na oração. Dificilmente esse ato era praticado por homens. Era mais comum em mulheres em situação de total desespero. Um antigo comentário judaico sobre Eclesiates 7:2 lança luz sobre esse inusitado gesto do publicano:

“R. Mana disse: E os vivos colocarão isto no seu coração; estes são os justos que colocam a sua morte contra o seu coração; e por que eles batem sobre o coração? Como a dizer: ‘Tudo está aí,” (nota:... os justos batem sobre o coração como fonte de anseio pelo mal.) (Midrash Rabbah, Ecl. VII. 2,5, Sonc., 177). (Apud, Kenneth Bailey, As Parábolas de Lucas, p. 337)

Ao bater no peito, portanto, ele dizia “eu não quero esse coração.” Ele reconhecia que “do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mateus 15:19). Dessa maneira, manifestou o desejo de que Deus lhe fizesse um transplante de coração para que ele deixasse de ser aquilo que tinha sido (Jeremias 31:33).

Ao fazer sua oração, o publicano pede que Deus o cubra, que a justiça de Cristo esteja entre ele e a ira divina e que ao mesmo tempo essa justiça seja impregnada em si e que ele seja confundido com Jesus, recebendo o tratamento que o Senhor merece. Ele usa a palavra “propício”, que é uma direta referência ao propiciatório – móvel do Templo que cobria arca da aliança, simbolizando a interposição que Cristo faz entre o pecador arrependido e a santidade de Deus. Assim, o propiciatório simbolizava a imputação dos méritos de Cristo sobre o pecador, fazendo com que o pecador não fosse visto como tal por Deus, mas que o Pai visse Jesus, porque este se coloca entre a santidade de Deus e o pecador. O propiciatório também simbolizava a comunicação das virtudes de Cristo para o pecador arrependido, uma vez que todos aqueles que recebem a graça da propiciação manifestarão na vida o caráter de Jesus.

Portanto, quando o publicano clama por propiciação está pedindo a justiça de Cristo em sua vida. Essa justiça que substitui a morte do pecador e o habilita a ser como Cristo. Ou seja, a propiciação, transforma completamente o caráter. Assim, o publicano não está contentado com uma religião externa, aparente. Ele deseja uma religião profunda, proveniente do coração. Ele evoca as graças da nova aliança, que segundo Jeremias 31:33, configura-se da seguinte forma: “Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel depois daqueles dias diz o Senhor: Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei, eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo.”

Na oração de Davi no Salmo 51, a qual o publicano está se referindo, no verso 10, lemos: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável.” O clamor de alguém realmente arrependido não é apenas por perdão, mas também por santificação, por uma fé inabalável. Da mesma forma que o perdão é divino, o poder para ter uma vida santa também o é. O verbo que aparece na oração de Davi é criar (bara), o qual tem apenas Deus como sujeito. É o mesmo verbo usado para se referir a Deus como criador do mundo físico. Deus criou todas as coisas através do intercurso de Sua Palavra. Para criar, Deus apenas precisa falar. Na criação de um novo coração no ser humano, não é diferente. Deus fala e o que não existe passa a existir. Não importa quão pecador alguém seja, quão distante tenha ido e tenha se afastado de Deus, a Palavra de Deus é capaz de fazer qualquer pessoa se tornar semelhante a Jesus, de forma milagrosa.

CONCLUSÃO

Deus deseja ardentemente, portanto, efetuar essa obra em cada um de nós. No entanto, isso só será possível se o pecador se aproximar do Senhor com humildade, reconhecendo sua terrível condição e focando-se apenas nos méritos do sacrifício expiatório de Cristo. O fariseu não foi justificado porque, ao contrário disso, seus olhos estavam voltados para suas “boas obras” em comparação com os pecados dos outros. O publicano, por outro lado, reconheceu sua indignidade e só teve voz para clamar por propiciação uma vez que entendeu que a única esperança que tinha estava na morte substitutiva do cordeiro.

Foi por isso ele desceu justificado. No verso 14, não se usa mais a palavra publicano. Quando aquele homem desceu do Templo, ele não era mais um publicano. Ele subiu para o templo humilhado e desceu justificado. O fariseu subiu exaltado e desceu condenado.

Isso ensina para todos nós a receita da salvação, que consiste em reconhecer a nossa condição de pecadores, clamar pela infinita misericórdia de Deus, receber Seu perdão e permitir que Ele santifique completamente nossa vida como produto inevitável do perdão que Ele nos deu.


sábado, 26 de novembro de 2011

NÃO QUERO ESSE CRISTO

Pr. Vinícius Mendes


 
“Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível os escolhidos.” Mt. 24:24

O cristianismo é uma religião composta por seguidores de Cristo. Dessa forma, ser cristão implica imitar a Cristo. Mas existe o Cristo verdadeiro e os cristos falsos. Se existem falsos cristos, presume-se, então, que existem falsos cristãos.

Para sermos cristãos verdadeiros, precisamos conhecer o verdadeiro Cristo, segui-Lo a fim de não sermos confundidos com as falsificações que existem por aí. A pergunta que surge, portanto, é: como é o Jesus da Bíblia? Como a Palavra de Deus O descreve? Para isso, vamos recorrer ao que Ele disse a respeito de Si mesmo em Nazaré, onde, por conta de Sua autodescrição, foi terrivelmente rejeitado.

O ministério de Jesus tinha se iniciado a pouco tempo. Ele havia passado em Cafarnaum e feito muitos milagres, criando muita expectativa e euforia. “Então, Jesus, no poder do Espírito, regressou para a Galiléia, e Sua fama corria por toda a circunvizinhança. E ensinava nas sinagogas, sendo glorificado por todos.” (Lc. 4:14)

Quando chegou a Nazaré, portanto, a expectativa era muito grande e o povo esperava que Ele fizesse na terra em que fora criado, os milagres que eles ouviram falar. Através de uma apresentação miraculosa, os nazarenos esperavam que Jesus provasse ser o messias esperado. No entanto, Jesus descreve-Se como messias, usando apenas as Escrituras, sem usar curas e milagres.

Um Cristo bíblico


Na sinagoga de Nazaré, Jesus foi convidado para pregar. “Então lhe deram o livro do profeta Isaías e, abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos,e apregoar o ano aceitável do Senhor” (Lc. 4:18-19).

Jesus não Se utilizou de nenhum milagre para evidenciar Sua missão. Ele apenas recorreu a uma profecia messiânica que descrevia Sua obra. Assim é o verdadeiro Cristo: bíblico. Sua identidade é oriunda das Escrituras. O verdadeiro Cristo só pode ser conhecido por meio da Bíblia. Assim, cristianismo que não se baseia integralmente na Palavra de Deus não é um cristianismo verdadeiro. Se o cristo for falso, naturalmente, os cristãos também o serão. Gosto da frase que ouvi certa vez de um pastor: “Não acredito em cristão que não lê a Bíblia.” O mundo está cheio de cristãos falsos, que seguem uma deformada caricatura de Cristo. Existem cristos para todos os gostos. O que tem predominado em nossos dias é o cristo adequado ao capitalismo, ou seja, um cristo para consumistas. Falsos cristãos recorrem a esse falso cristo para terem suas necessidades materiais saciadas. Não estão em busca da salvação e da transformação que o evangelho produz. Desejam prosperar materialmente, desejam curas para suas moléstias e usar esse tal cristo para tudo aquilo que necessitam. Depois que usam, guardam seu objeto “tecnológico” mágico para necessidades futuras. E se percebem que não precisam mais dele, descartam-no, como fazem com seus aparelhos tecnológicos ultrapassados.

O Cristo verdadeiro é o Cristo da Bíblia. Sem a Palavra de Deus, surge uma patética imagem de um cristo complacente e sem compromisso com a verdade. Cristãos falsos não estudam a Bíblia. Estão na igreja, mas dedicam seu tempo para tudo, menos à Palavra de Deus. Podem falar com desenvoltura sobre filmes, novelas e esportes em geral, porém se forem solicitados para discorrerem sobre o evangelho, não se sentem preparados e terceirizam essa atividade para a “mão de obra especializada”: pastores e líderes.

Um Cristo cheio do Espírito



Utilizando Isaías 61, Cristo diz a respeito de Si mesmo: “O Espírito do Senhor está sobre mim.” Essa primeira característica aponta para um tema muito relevante para o cristianismo atual: a atuação do Espírito Santo. A operação de falsos cristos pressupõe a atuação de um falso espírito santo. O culto místico ao Espírito Santo, que temos visto em nossos dias super-enfatiza a competência sensorial e miraculosa do Espírito Santo. Evidencia-se, nesses cultos, a presença e atuação do suposto Espírito Santo por meio de manifestações extáticas, choro e sinais milagrosos. Essa é uma falsificação do Espírito Santo. O próprio Espírito Santo adverte através do apóstolo Paulo a respeito das falsificações que temos visto hoje em dia: “Ora o Espírito afirma expressamente que nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios, pela hipocrisia dos que falam mentiras e que têm cauterizada a própria consciência” (I Tim. 4:1-2).

Jesus apresenta a verdadeira natureza do Espírito Santo, a qual é muito diversa da que temos presenciado em nossos dias. Jesus diz que o “Espírito do Senhor” estava sobre Ele. O verdadeiro Espírito Santo transforma a vida do verdadeiro cristão, fazendo que a Palavra impregne a vida do crente. Ele não é uma espécie de gênio da lâmpada para satisfazer desejos, produzindo sensações emocionais e sensuais, como temos visto em nossos dias.

Cristo disse que o Espírito que estava sobre Ele o compelia a evangelizar os pobres. O verdadeiro Cristo, movido pelo verdadeiro Espírito não esperava enriquecer às custas da ingenuidades das pessoas. Pelo contrário, Ele veio para dar e não para receber. A preocupação do verdadeiro Cristo é em abençoar as pessoas. Falsos cristãos são egoístas; só pensam em si mesmos. Seguem um cristo ávido por dinheiro, ou seja, um cristo financista e egoísta. O suposto serviço que esse tal cristo oferece, como um bem capitalista, precisa ser pago e muito bem pago, por sinal. Essa é uma religião que não se preocupa sinceramente com as pessoas. Só se elas tiverem como pagar por isso. Tal teologia, (se é que podemos chamar uma aberração assim de teologia) é totalmente contrária ao evangelho bíblico, que se resume em Deus oferecendo gratuitamente a salvação.

É por isso que o mundo está cheio de falsos cristãos, pois seguem essa caricatura capitalista de um cristo pecuniário. Esse não é o verdadeiro Cristo. Os que seguem o Cristo da Bíblia são sensíveis às necessidades reais das pessoas e não fecham os olhos ao sofrimento alheio. Renunciam a prazeres para que o faminto seja alimentado e o nu seja vestido. O verdadeiro cristão reflete a imagem de amor ativo que é vista no Cristo bíblico. O restante da descrição que Cristo faz de Si mesmo usando Isaías 61 vai na mesma direção, acrescentando que o evangelho que Ele tem para pregar é um evangelho de liberdade e que não escolhe pessoas por conta de sua classe social, gênero, cultura ou moralidade. É um evangelho universal que ama o pecador e deseja transformá-lo.

Um Cristo altruísta



“Então, passou Jesus a dizer-lhes: Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir” (Lc. 4:21). O verdadeiro Cristo apresenta-se através de um texto bíblico. Sua identidade estava profeticamente prevista nas Escrituras Sagradas e Ele, sem titubear, a assume. Verdadeiros cristãos leem a Bíblia e esta, invariavelmente, apresenta-lhes a mesma missão do verdadeiro Cristo. Disse Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque vou para junto do Pai”(Jo. 14:12). Assim, os verdadeiros cristãos, não se eximem de sua missão. Chamam a responsabilidade para si. Não ficam esperando que outros façam aquilo que é sua legítima responsabilidade. Não jogam sobre a instituição a responsabilidade que lhes pesa nos ombros. Não dizem: “que bom que temos a ADRA para cuidar dos que necessitam! Eu não preciso ajudar”. Ou então: “minha parte eu já fiz, devolvendo meu dízimo e minhas ofertas.” Os verdadeiros cristãos perguntam, movidos por uma sensível compreensão da graça de Deus: “O que podemos fazer mais por Cristo e pelo próximo?”

Porém, esse tipo de cristianismo não é popular. Infelizmente não é esse o cristo que tem arrebatado multidões. Não é esse que está em camisas de atletas e cantado em irreverentes canções. Trata-se de um cristo relativo e indefinido. Um cristo multifacetado que serve aos gostos mais excêntricos possíveis. Um cristo descomprometido com o amor prático, um cristo preocupado com a prosperidade financeira de seus fiéis e sem nenhum compromisso com a verdade bíblica. Esse é um cristo que emociona multidões, mas não transforma suas vidas. Está na boca de artistas, que visam lucro com a popularidade desse nome. Esse cristo despudoradamente compartilha o coração de pessoas com outros deuses, como o dinheiro, a fama e sexo ilícito. Eu não quero esse cristo!

Um Cristo rejeitado



O verdadeiro Cristo, no entanto, tem sido rejeitado como foi em Nazaré. Na cidade em que foi criado, depois de Se descrever, Jesus ouviu: “Não é este o filho de José?” (Lc. 4:22). Naquela ocasião, os nazarenos só estavam dispostos a crer que Jesus era de fato o messias mediante a operação de milagres. Ao perguntarem sobre a paternidade humana de Jesus, estavam querendo, na verdade, defini-Lo como apenas humano, negando Sua divindade. Só creriam nEle, como messias, se Ele desse sinais comprobatórios. Só que eles desconheciam que os milagres que Cristo operava eram em resposta à fé daqueles que eram beneficiados e não o contrário como supunham. Falsos cristãos, seguem um cristo midiático, propagandeado como milagreiro. Para esse cristo, estão dispostos a dar vultosas quantias financeiras em troca de benefícios temporais. Para eles, o cristianismo verdadeiro não é atraente, não sentem poder nessa religião. A religião verdadeira, para esse grupo de pessoas, precisa atender suas necessidades temporais. Desconhecem que “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo” (Tg 1:27). Infelizmente, para muitos essa não é a religião divina. Como os nazarenos, relacionam o verdadeiro cristianismo bíblico a algo estritamente humano. Esses são falsos cristãos porque seguem um cristo falso.

Para refutar a premissa dos nazarenos que tinham uma visão deturpada da obra do messias, Cristo citou dois exemplos do Antigo Testamento, aumentando a perplexidade de Sua audiência e irando Seus ouvintes. Ele mencionou a fé da viúva de Sarepta que creu na palavra do profeta Elias, servindo seu último prato de comida para o homem de Deus, sendo milagrosamente abençoada após seu ato de fé (Lc. 4:26). Jesus mencionou também o exemplo de Naamã, o siro, que creu na palavra do profeta Eliseu, que lhe indicou banhar-se no rio Jordão sete vezes para ser curado da lepra (Lc. 4:27). Nos dois casos que Jesus citou, os dois beneficiados primeiro exerceram fé para depois serem abençoados. Tanto no primeiro caso como no segundo, aparecem pessoas estrangeiras, alheias ao povo de Israel. Com isso, Jesus estava ensinando que a benção da salvação não é exclusiva a um grupo. Ela está disponível a “todo aquele que nEle crê” (Jo. 3:16).

Esses dois exemplos foram a gota d’água para aqueles nazarenos. Com essas citações, Cristo deixou claro para eles que Sua obra de salvação tinha como premissa básica a fé e não a nacionalidade israelita, como eles imaginavam. Cristo estava estendendo as fronteiras da salvação para todos os povos e, em seu ilegítimo exclusivismo nacional, eles não podiam aceitar isso. Rejeitando a Jesus, estavam dizendo: “Não queremos esse Cristo!”

“E, levantando-se, expulsaram-no da cidade e o levaram até ao cimo do monte sobre o qual estava edificada a cidade, para de lá o precipitarem abaixo”(Lc.4:29). O Cristo verdadeiro não é popular. Muitos O querem morto. Foi assim em Nazaré, foi assim em Jerusalém no ano 31, é assim no século 21. “Ele, porém, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho”(Lc. 4:30). Os anjos de Deus protegeram o verdadeiro Cristo, retirando-O daquelas mãos assassinas.Embora os verdadeiros cristãos não sejam populares, podem contar com a proteção dos anjos de Deus em benefício do cumprimento da missão evangélica.

O verdadeiro Cristo foi pendurado na cruz, mas a morte não pode retê-Lo. Verdadeiros cristãos não têm diante de si uma realidade diferente. No entanto, da mesma forma como o verdadeiro Cristo é eterno e reina pelos séculos dos séculos, os verdadeiros cristãos reinarão com Seu Senhor para sempre. Eu quero esse Cristo!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Vinícius Mendes de Oliveira
Formando em Teologia pelo SALT -IAENE
Professor de Língua portuguesa no IAENE
Mestrando em Ciência Sociais pela UFRB



A GRATIDÃO É A RESPOSTA


“Então, Jesus lhe perguntou: Não eram dez os que foram curados? Onde estão os nove? Não houve, porventura, quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te e vai; a tua Fe te salvou.” Lucas 17:17-19

A gratidão é a resposta imediata de uma pessoa que reconhece que recebeu a graça de Deus. A graça vem de Deus. Essa é a parte dEle. A gratidão deve brotar como resposta no coração humano. Essa é a nossa parte. No relato da cura dos dez leprosos, Jesus, usando a recorrente fórmula de declaração de salvação, diz ao leproso agradecido: “a tua fé te salvou.” O interessante é que não foi apenas o samaritano que foi curado da lepra, os outros nove também foram, mas apenas ele foi declarado salvo por Jesus. Apenas ele compreendeu o propósito maior por detrás da cura física que havia recebido.

Isso ensina que a graça de Deus é universal, ou seja, Ele a despeja sobre todos, mas só os que demonstram completa gratidão poderão usufruir da salvação. Ensina também que a obediência que Deus deseja que tenhamos é produto da recepção da graça no coração. Se for motivada por qualquer outra coisa, não pode ser recebida por Deus.

O episódio da cura dos dez leprosos evidencia como pode ser produzida no coração uma fé genuinamente grata pelo dom da salvação oferecido a nós. Deus sempre nos atrai, muitas vezes usando nossas necessidades humanas e exercita nossa fé, provando se de fato confiamos em Sua Palavra. A partir disso, Sua expectativa é que compreendamos o presente da salvação sem o qual não poderíamos viver, e devotemos nossa vida de forma irrestrita ao Senhor, através de uma obediência motivada por amor.

A ISCA

Os dez leprosos, pelas leis de higiene, não podiam se aproximar de ninguém. Respeitando essas leis, eles se dirigem a Jesus, à distância, imaginando que Cristo fosse um ser humano como os outros, passível de contaminação. Eles gritam em busca de misericórdia, imaginando, quem sabe, que Cristo pudesse curá-los fisicamente ou amenizar seu sofrimento. A postura deles, no entanto, é bem diferente de um leproso que se aproximou de Jesus o suficiente para ser tocado pelo Senhor. Esse indivíduo reconhecia a Cristo como Messias e exerceu uma fé genuína. Mas os dez leprosos ficaram de longe com medo de contaminar Jesus com sua lepra.

O pecado é exatamente assim, afasta as pessoas de Deus. No lamaçal do pecado, muitos são levados a crer, por Satanás, que não são dignos de se aproximar de Jesus. Assim o inimigo tem vitória. Mas, quando uma alma vacilante, mesmo distante, considerando-se indigna, clama a Jesus, não fica sem resposta do Mestre.

Essa distância de Cristo também pode simbolizar os motivos errados que nos levam a buscar a Jesus. Alguém que se relacione com Cristo apenas por conta das contingências humanas, não conseguirá chegar próximo do salvador para vê-lO de perto, experimentá-lO e vivenciar todas as maravilhas da presença de Cristo. Ficam, à distância, gritando por uma migalha de Sua misericórdia, quando poderiam se aproximar, com fé, reconhecendo que a sua oferta é muito maior do que nós queremos inicialmente. Ficam esperneando pelos desejos de um coração não regenerado, quando o que Cristo pode oferecer é a real necessidade que possuem, mas não conseguem enxergar. Não é esse tipo de relacionamento que Deus deseja ter conosco. Ele quer que nós nos aprofundemos em Sua vida, que O contemplemos bem de perto e sejamos salvos, que prossigamos em conhecê-lO. Mas uma busca baseada apenas nas superficialidades da vida, por mais que sejam coisas importantes e reais (como a lepra daqueles dez, ou as suas dívidas e desilusões amorosas, por exemplo) jamais dará ao ser humano aquilo que Deus deseja muito oferecer: a salvação.


O EXERCÍCIO DA FÉ


Essa busca egoísta, no entanto, não é desconsiderada por Deus. O verso 14 diz que quando Cristo ouviu aqueles gritos, à distância, respondeu, dizendo a eles que podiam se mostrar aos sacerdotes, que atuavam também como uma espécie de ficais da vigilância sanitária, verificando se alguém que se dizia curado, realmente, estava.

O fato é que quando Jesus pediu para aquele grupo ir aos sacerdotes eles ainda eram leprosos. A estratégia de Cristo, com isso, era estimular a fé daqueles homens. O Senhor desejava ensinar que, quando pedimos algo a Deus que está prometido em Sua palavra devemos ter a certeza de Sua resposta. O Senhor não aprecia pessoas duvidosas que vivem em busca de sinais para que possam crer. A Palavra de Cristo deve ser suficiente para nós. A fé vê o invisível, ouve o inaudível e apalpa o intangível. A fé é obedecer a Deus, mesmo que isso pareça estranho. É por isso que aqueles que andam pela fé estão na contramão do mundo. Seria uma situação ridícula para aqueles indivíduos mostrarem-se para os sacerdotes estando ainda leprosos. Mas o texto diz que eles foram e, na ida, foram curados.

Essa situação torna clara nossa necessidade de confiarmos irrestritamente na Palavra de Deus. Todos estamos doentes com a lepra do pecado e, de uma forma ou de outra, muitas vezes clamamos para que Deus nos limpe desses pecados, mas a impressão que temos, às vezes, é a de que não somos ouvidos. Os pecados são recorrentes é parece que nunca vamos vencê-los. As promessas da nova Aliança dão conta de que nós seremos vencedores e que a Lei de Deus estará em nossos corações, produzindo uma obediência completa a Deus. Esse é o tempo em que devemos reclamar insistentemente essas promessas e nos apropriarmos delas. Devemos, a exemplo dos dez leprosos, agir com base nessas promessas. Não podemos duvidar de Deus, pois Ele já proveu todos os meios para nossa redenção: Seu precioso sangue na Cruz e Seu Espírito regenerador.


O VERDADEIRO PRESENTE


Com a cura da lepra, Jesus queria levar os dez leprosos a entender a necessidade que tinham de salvação. Mas apenas um deles, o samaritano, compreendeu isso. Todos os dez haviam sido objeto da graça de Cristo, mas apenas ele se apropriou dela. O detalhe é que a graça de Deus não era o milagre da cura. Isso era apenas a isca para que aquelas mentes concretas pudessem ser encaminhadas para o Reino espiritual de Deus. No entanto, infelizmente, como os nove leprosos, a maioria das pessoas se contenta com as benesses materiais providas pelo evangelho, sem considerar que estas são iscas para atraí-los a um relacionamento íntimo com o Salvador.

Mas um rompeu a barreira do natural e manifestou fé, uma fé que alcançou a graça de Deus. O presente estava nas mãos de Cristo sendo oferecido para todos, mas apenas esse leproso samaritano teve o braço da fé para agarrá-lo. O verso 15 diz que ele voltou. Nem se menciona que ele tenha ido aos sacerdotes, ao que tudo indica quando ele percebeu que a mancha da lepra tinha saído de sua vida, deu meia volta, correu para onde Jesus estava e passou a glorificar a Deus em alta voz.

Esse é o resultado natural de uma vida que se apropria da graça de Cristo: um espetáculo de louvor a Deus. Ninguém cala uma pessoa salva por Jesus. O mundo percebe a diferença. Ele emite altos louvores ao seu Senhor. Ele se prostra, reconhecendo o senhorio de Cristo na vida e agradece.

Esse é a conceito-chave desse texto: gratidão. A gratidão é a resposta natural que alguém emite em relação ao recebimento da graça de Deus. Ser grato é reconhecer que o que foi recebido é imerecido. Com relação ao presente da salvação é entender que, se não fosse por Cristo, estaríamos perdidos, e que Jesus salvou a nossa vida. Então, a gratidão diz: “Deus, eu estou aqui, com tudo o que sou. Não mereço estar aqui, mas o Senhor me salvou, por isso me entrego completamente, sem reservas”. Isso é gratidão. Gratidão não é a hipocrisia das palavras. Gratidão é uma completa obediência a Cristo já que Ele pagou o preço pelo qual nós fomos salvos e, por isso, é o nosso Senhor. Uma pessoa realmente grata pelo presente da salvação que recebeu devotará sua vida a Deus em completa obediência e esta não lhe parecerá pesada. Não ficará questionando as ordens divinas, tentando relativizá-las, mas se subordinará inteiramente a Deus e perguntará ainda o que poderá fazer em resposta a esse amor tão grande e imerecido. Perguntará e responderá como o salmista: “Que darei ao Senhor por todos os Seus benefícios? Tomarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor. Cumprirei os meus votos ao Senhor, na presença de todo o Seu povo.”

O detalhe é que esse leproso que expressou gratidão era samaritano. Talvez isso ajude a explicar sua atitude. Os outros nove talvez por serem judeus imaginassem que eram dignos da cura e que a única dificuldade que tinham na vida era lepra, resolvido isso estavam muito bem. Mas o samaritano entendeu que sua necessidade era muito maior do que a cura. Ele precisava de salvação. A atitude dos nove fechou-lhes o céu. A atitude do samaritano fez dele um salvo.

A oferta graciosa de Cristo é para todos, mas apenas aqueles que com fé se aproximam de Deus serão salvos. Muitos se contentam com um relacionamento superficial com Jesus, desejando apenas bênçãos materiais. Entretanto a salvação só pode ser acessada por pessoas que com fé se dirigem a Deus e entregam plenamente sua vida em gratidão irrestrita.

quinta-feira, 30 de junho de 2011


Vinícius Mendes de Oliveira
Professor de Língua Portuguesa no IAENE
Mestrando em Ciências Sociais na UFRB
Formando em Teologia no IAENE


A DOUTRINA DA MORTE



INTRODUÇÃO

O estado do homem na morte é um assunto muito controvertido em nossos dias. Compreender esse assunto é de vital importância devido ao fato de que envolve a natureza do homem e o plano de Deus para salvá-lo do pecado. È por isso que o inimigo de Deus tem trabalhado muito para que haja confusão a respeito desse ponto e que em seu primeiro engano para o ser humano, levou nossos primeiros pais a pensarem que não morreriam, como tem ensinado o espiritismo.

Portanto, esse texto aborda esse tema a partir da perspectiva bíblico-antropológica e da análise de dois textos bíblicos usados erroneamente para refutar a correta doutrina bíblica a respeito do estado do homem na morte.

ANTROPOLOGIA BÍBLICA

Esse é um tema antropológico. Logo, precisamos recorrer, para iniciarmos o assunto, à criação do homem e a forma como Deus define a pergunta geradora da antropologia: “O que é o homem?” Gênesis 2:7 diz: “E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em seus narizes o fôlego da vida, e o homem foi feito alma vivente.”

De acordo com essa simples e clara definição o homem não possui uma alma. O homem é uma alma vivente. Do ponto de vista bíblico, a vida humana é uma composição de dois elementos: fôlego de vida e pó da terra. Observe que no texto de Genesis 2:7 a integralidade do ser humano é definida como alma vivente, ou seja, a alma não é uma entidade que está no homem, mas é o próprio homem. O texto é claro com respeito a isso. Há ratificações neotestamentárias desse pensamento mosaico em I Coríntios 15:45: “o primeiro homem Adão, foi feito em alma vivente...” E Apocalipse 16:3:” E o segundo anjo derramou a sua salva no mar, que se tornou em sangue como de um morto, e morreu no mar toda alma vivente.”

É interessante observar a relação que o Gênesis faz entre o tipo de vida que há no homem e a que existe nos animais: “Expirou toda a carne que se movia sobre a terra, tanto de ave como de gado e de fera, e de todo réptil que se roja sobre a terra, e todo homem, tudo o que tinha fôlego de espírito de vida em seus narizes, tudo o que havia no seco morreu.” Gênesis 7: 21-22.

O texto deixa claro que os animais possuem o mesmo fôlego de vida que os homens possuem. Assim, fica difícil pensar que os animais possuem uma alma pensante que sai de seu corpo quando morrem. O sábio Salomão acrescenta: “Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso também sucede aos animais; a mesma coisa lhe sucede; como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego; e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para o mesmo lugar, todos são pó, e ao pó tornarão.” Eclesiates 3:19-20

O texto acima ainda iguala o lugar para onde vão os mortos de forma tácita: pó da terra, porque todos são pó, tanto homens quanto animais. Veja que o texto não dá nenhuma margem para considerarmos outro lugar para onde vão os mortos senão o pó da terra.

Eclesiastes 12:7, falando sobre a morte diz: “e o pó volte a terra, como era, e o espírito volte a Deus que o deu.” O ponto de vista antropológico de Salomão (inspirado) é de que o homem é uma composição de pó (corpo) e espírito (hebraico ruaj e traduzido pela LXX como pneuma). Assim o termo ruaj e seu correlato grego pneuma equivalem a fôlego de vida. A analogia das Escrituras deixa claro que a fórmula antropológica de Salomão é a mesma que aparece em Gênesis 2:7.

Com respeito à incapacidade cognitiva e volitiva do estado do homem na morte, diz Eclesiastes 9:5-6 “Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, porque a sua memória jaz no esquecimento. Amor, ódio e inveja para eles já pereceram; para sempre não têm eles parte em coisa alguma do que se faz debaixo do sol.” Assim, não é possível uma formulação doutrinária bíblica que derive uma interpretação de um estado de consciência do homem após a morte.

É importante mencionar ainda que a compreensão de que a alma humana é imortal contradiz frontalmente a doutrina da ressurreição.

No Éden, o engano da serpente girou em torno da mortalidade X imortalidade da alma. Enquanto Deus havia dito que o casal original não devia comer do fruto, pois a consequência seria a morte (Gn. 3:3), Satanás, contradizendo a Deus disse “Não morrereis”(Gn. 3:4). O primeiro engano satânico foi levar o homem à compreensão mentirosa da imortalidade. A frase “É certo que não morrereis” tem ecoado hoje através do espiritismo, falsas doutrinas bíblicas, filmes, novelas etc.

Com esse ensino quer Satanás levar o homem a viver irresponsavelmente pois, segundo seu engano, sempre haverá uma chance, mesmo após a morte do corpo. Isso contradiz a Bíblia em Hebreus 9:27, que diz: “E, assim como aos homens está ordenado morreram uma só vez, vindo, depois disto, o juízo.”

A certeza de um juízo após a morte evidencia a necessidade de levar-nos a sério as coisas de Deus enquanto estamos vivos, pois a morte não nos reserva outra chance. É por isso que a Bíblia sempre apela para uma decisão para hoje (Hb. 4:7). Por outro lado, o juízo determinará de que maneira a eternidade se revelará para cada ser humano. É por isso que a Bíblia ensina que há duas ressurreições (João 5:28-29; Apoc. 20:1-6). A primeira para a vida eterna e a segunda para a morte eterna. O desejo de Deus é de que todos tenham parte na primeira ressurreição.

ANÁLISE DE I PEDRO 3: 13-20 E LUCAS 23:43

I PEDRO 3: 13-20

Com respeito, a I Pedro 3 : 18-20 a explicação bíblica é clara. No entanto, é preciso considerar o contexto em que esse texto aparece. A perícope inicia-se no verso 13, a partir de onde Pedro está instruindo os crentes a permanecerem firmes na fé diante da perseguição daqueles que não crêem na fé evangélica. O apóstolo recomenda a santificação e preparo para responder a respeito da esperança que os cristãos possuem. Pedro afirma, então, que é melhor sofrer pela verdade do que praticar o mal.

Com base nesse contexto, o apóstolo usa exemplo de Cristo, que morreu por justos e injustos. Pedro explica que a morte de Cristo lhe subtraiu temporariamente seu corpo humano, mas não lhe tirou a vida espiritual que Ele possui desde a eternidade. Foi no uso dessa vida (vida espiritual e não em Seu corpo humano) que Cristo pregou, através do ministério de Noé, aos antidiluvianos, que rejeitaram a oferta de salvação, zombando do profeta. A pregação de Noé resultou na salvação de sua família apenas, a qual os livrou do dilúvio, o que para Pedro simboliza o batismo, no qual os que ouvem e praticam a voz de Deus são salvos.

A dificuldade aparente desse texto reside no uso do termo “vivificado no espírito”(v.18) e à expressão “espíritos em prisão (v.19). A expressão “vivificado no espírito” está em oposição a “morto, sim, na carne”. O que Pedro quer ensinar aqui é que Cristo, durante a encarnação, viveu em carne humana, mas que, a despeito dessa condição humana, Ele possui vida espiritual. E foi no uso dessa vida espiritual que Ele pregou, nos dias da pregação histórica de Noé, através de Noé, aos antidiluvianos, chamados aqui de “espíritos em prisão”. Uma exegese honesta do texto, com base na analogia das Escrituras, não permite a inferência de que essa pregação foi após a morte de Cristo, até porque, segundo Hebreus 9:27, os homens morrem e estão sujeitos ao juízo, não havendo mais possibilidade de se mudar seu destino. Essa verdade bíblica torna sem propósito uma suposta pregação de Cristo a seres que morreram sem salvação. Se por acaso for tomada a teoria falsa de Cristo foi pregar, em Sua morte, aos anjos caídos, o problema persistirá pois Judas 6 diz que esses anjos estão sob trevas espirituais, com seus casos decididos aguardando o dia do juízo.

A expressão “espíritos em prisão” está fazendo uma clara referência aos antidiluvianos que viviam durante a pregação de Noé. A Bíblia, no Novo testamento, usa muitas vezes o termo “espírito” para se referir a pessoas vivas (I Cor,16:18; Gl. 6:18). Com respeito a essa expressão associada à prisão, a explicação é a de que o pecado (natureza pecaminosa) é uma prisão para o ser humano sem Cristo (Rm 7:7-25).

Assim, o resumo do ensino de Pedro nessa perícope (I Pedro 3: 13-22) é de que os crentes devem permanecer na fé e defendê-la com amor, mesmo que isso resulte em desprezo e perseguição. O caso de Cristo, pregando aos antidiluvianos é tomado como exemplo, pois mesmo estes não aceitando Sua pregação (apenas oito pessoas foram salvas) e Ele sendo morto em Sua encarnação, isso não lhe tirou a vida espiritual que Ele possuía desde a eternidade, a qual foi plenamente recuperada por Ele em Sua ressurreição. O que Pedro quer ensinar que essa vida espiritual, através da ressurreição, é oferecida a todos os que permanecem na Palavra de Deus.

LUCAS 23: 43

“E Jesus respondeu: em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso.”

A explicação dessa passagem passa pelos seguintes seguimentos: 1- contextual e 2- linguístico

CONTEXTUAL

Em Suas palavras de despedida aos apóstolos no Cenáculo, vinte quatro horas antes de dizer essas palavras ao ladrão, Jesus disse: “E quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que onde eu estou, estejais vós também.” João 14:3. Essas palavras indicam claramente que o paraíso, para onde os salvos vão, só pode ser acessado quando Jesus voltar. Isso torna incoerente a suposta promessa de Jesus de que o ladrão estaria naquele mesmo dia, com Ele, no paraíso. Da boca de Cristo nunca saiu e nunca sairá incoerência.

Três dias após a promessa ao ladrão, Jesus diz a Maria Madalena: “Não me detenhas; porque ainda não subi para meu Pai...” João 20:17. Haveria uma grave contradição contextual se Jesus de fato tivesse prometido ao ladrão que estaria com Ele naquele dia no paraiso, pois nem Ele mesmo tinha ascendido ao céu. Entendendo que na Bíblia não há contradição, fica claro que o ladrão não poderia estar com Jesus, naquele dia, no paraíso.



LINGUÍSTICO

É essencial saber que a versão grega original do texto de Lucas 23:43 não possui nem sinais de pontuação tampouco o conectivo que aparece nas versões modernas. Assim no texto original grego de Lucas não aparece a conjunção subordinativa oti (que). Seu acréscimo nas versões atuais decorre da influência que a doutrina da imortalidade da alma exerceu sobre os tradutores modernos da Bíblia.

Dessa forma, o texto deveria ser lido corretamente assim: “Em verdade te digo hoje estarás comigo no paraíso.” O advérbio hoje (grego semeron) nesse texto é usado para modificar o verbo digo e não o verbo estarás.

Em Marcos 14:30, aparece o advérbio semeron (hoje) antecedido pela comjunção oti (que): Em verdade te digo que hoje, nesta noite, antes que duas vezes cante o galo, tu me negarás três vezes.”

No texto de Marcos, vemos Jesus enfatizando que a negação de Pedro ocorreria naquela mesma noite, como de fato aconteceu. Portanto, o uso de semeron (hoje) antecedido de oti (que) aparece corretamente no original grego. Mas o mesmo não ocorre em Lucas 23: 43, pois Jesus não desejava, neste texto, enfatizar uma noção presente da ida ao paraíso com a palavra hoje (semeron), mas relacionar o termo hoje ao verbo digo com o propósito fortalecer o valor do que ia dizer.

Infelizmente para, literalmente, colocar palavras na boca de Jesus, forçando-O a dizer o que não pretendia, os tradutores modernos da Bíblia acrescentaram a palavra que ao texto de Lucas para que essa passagem pudesse ser base para uma doutrina não bíblica.

CONCLUSÃO

Embora a doutrina da morte seja controvertida em nossos dias, um exame criterioso do ensino das Escrituras sobre o tema deixa clara a noção de que o ser humano é uma entidade holística, composta por corpo (pó da terra) e espírito (fôlego de vida).. Logo, o homem não possui uma alma, mas é uma alma. Uma análise criteriosa, embasada em uma exegese séria, de qualquer texto bíblico, inclusive os que parecem mais complexos revelam a doutrina de que o homem é mortal, e que o juízo de Deus decidirá o destino de todos os homens. Está diante de todas as pessoas escolher apenas dois caminhos: vida eterna ou morte eterna. Não há uma estrada alternativa. A mentira Satânica, desde o Éden, foi fazer pensar que o homem poderia ser eterno como Deus. Mas só o Senhor tem esse dom e deseja compartilhar com todos aqueles que aceitam e praticam toda a palavra que procede da boca de Deus (Mateus 4:4).

sábado, 18 de junho de 2011


AS DUAS FACES DO CORDEIRO

                                   Vinícius Mendes de Oliveira
Mestrando em Ciências Sociais na UFRB
  Professor de Língua Portuguesa no IAENE
Aluno do 7º período do SALT – IAENE
vimeo@hotmail.com




“Os reis da terra, os grandes , os comandantes, os ricos, os poderosos e todo livre, se esconderam nas cavernas e nos penhascos dos montes e disseram aos montes e aos rochedos: Caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono e da ira do Cordeiro, porque chegou o grande Dia da ira deles; e quem é que pode suster-se?” Apocalipse 6: 15-17

INTRODUÇÃO

O texto acima apresenta o quadro caótico em que estará o mundo e a situação de desespero de grande parte da população nos momentos que antecedem imediatamente a volta de Jesus. O verso 17 revela a imagem de Jesus, o Cordeiro, irado, vindo nas nuvens do céu para executar o Seu juízo. Milhares de pessoas se encontrarão perdidas, pessoas estas de todas as classes sociais, que clamarão aos montes e rochedos “caí sobre nós e escondei-nos da face daquele que se assenta no trono”.
 Tal situação, então, faz emergir a séria pergunta que finaliza o capítulo seis de Apocalipse, onde, nos versos 12 a 17, aparece o sexto selo. Diante de tamanha perdição em que estão submetidos, os perdidos dramaticamente perguntam: “quem é que pode suster-se?”. O livro do Apocalipse não deixa sem resposta essa questão. No capítulo sete, o apóstolo João apresenta três características daqueles que passarão incólumes pelo caos em que o mundo estará nos momentos antecedentes à volta de Jesus e esclarece qual o motivo por que essas pessoas não sofrerão a ira do Cordeiro, mas usufruirão de Sua amorável proteção.

SELAMENTO

            O capítulo sete de Apocalipse inicia a resposta à pergunta que finaliza o capítulo anterior apresentando quatro anjos que estão neste planeta, evitando que o mundo seja completamente devastado até que outro anjo pudesse assinalar a fronte dos fiéis com o selo do Deus vivo (Ap 7: 1-2). O anjo assinalador diz, no verso 3: “Não danifiqueis nem a terra, nem o mar, nem as árvores, até selarmos na fronte os servos do nosso Deus.”
            Esse texto começa respondendo a pergunta do capítulo seis, apresentando claramente que haverá um grupo de selados, os quais são chamados de “servos do nosso Deus.” Esse grupo, frente ao terrível drama pelo qual o mundo passará, estará seguro, mesmo diante das provas, pois estarão protegidos por Deus e Seus anjos.
            A pergunta que surge, no entanto, é: qual é o selo que distinguirá os protegidos servos de Deus dos desesperados perdidos descritos no final do capítulo seis de Apocalipse?
            O apóstolo Paulo em Efésios 1: 13 e 4:30 diz: “em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; E não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção.” Os textos acima são claros em apresentar o Espírito Santo como o agente selador, ou seja, o crente só recebe o selo de Deus através do Espírito Santo. Assim, fica claro que o selamento é produto da ação de Deus no ser humano e não de um esforço humano para alcançar mérito diante de Deus, habilitando-o para a salvação.
            Nesse momento, no entanto, é importante refletirmos sobre qual é, de fato, a obra do Espírito Santo na vida do crente para compreendermos o que o Espírito sela na vida de um servo de Deus. Em Ezequiel 36: 26 e 27, lemos: “Porei dentro de vós o meu espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardareis os meus juízos e os observareis.” O profeta Ezequiel nesses versos deixa claro qual é a obra do Espírito no coração: fazer um transplante de coração do fiel, inscrevendo nesse novo coração os estatutos e juízos de Deus que são termos sinônimos para lei. Assim, o profeta quer evidenciar que Deus deseja uma obediência que não seja externa, mas que seja produto de um coração transformado. Sobre esse mesmo tema, Jeremias 31: 33 diz: “Porque esta á a aliança que firmarei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Na mente lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo.” Portanto, conforme, os textos acima, a obra do Espírito Santo, ou o seu selo, tem que ver com a inscrição da imutável e eterna Lei de Deus no coração, transformando a obediência a Deus em algo que procede de um coração “transplantado” que obedece por amor e não por obrigação. Isaías 8: 16 também menciona o tema do selamento da lei: “Resguarda o testemunho, sela a lei no coração dos meus discípulos.” Dessa forma fica claro que o agente selador é o Espírito Santo e que o que Ele sela está diretamente relacionado à Lei de Deus.
            O selamento é a obra em que Deus diferencia claramente aqueles que lhe pertencem em relação àqueles que escolheram espontaneamente não serem de Seu povo. O selo, portanto, é um sinal distintivo. Falando sobre a obra de Deus em distinguir o Seu povo, Ezequiel 20: 12 diz: “ Também lhes dei os meu sábados, para servirem de sinal entre mim e eles para que soubessem que eu sou o Senhor que os santifica.” Nos versos 19 e 20, Ezequiel completa: “ Eu sou o Senhor, vosso Deus; andai nos meus estautos, e guardai os meus juízos, e praticai-os; santificai os meus sábados, pois servirão de sinal entre mim e vós para que saibais que eu sou o Senhor que os santifica.” Nesses textos, Ezequiel apresenta o sábado como um claro sinal distintivo entre Deus e Seu povo. Foi o mesmo Ezequiel quem apresentou o Espírito Santo como agente selador da lei no coração. No entanto, nos versos acima, o profeta destaca, da lei, um mandamento para funcionar especificamente como sinal entre Deus e Seu povo, sem, obviamente, desconsiderar os demais mandamentos como esclarece Ezequiel 20:19.
            O questionamento que surge, portanto, agora é: por que o quarto mandamento foi destacado por Deus para ser o selo distintivo entre Si e Seu povo? A resposta encontra-se no próprio quarto mandamento: “Lembra-te do dia de Sábado para o santificar. Seis dias trabalharás e fará toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou.” (Êxodo 20: 8 -11)
A imagem que é evocada com o tema do selamento é a de um proprietário de gado marcando seus animais, para diferenciá-los dos que não lhe pertencem. É por isso que o mandamento do sábado é tão importante nesse contexto, pois é o único entre os demais, que apresenta claramente o nome de Deus, (Senhor, teu Deus), o mandamento diz qual a jurisdição em que atua o Senhor, (os céus e a terra) e apresenta ainda Deus como o criador de todas as coisas. Esses dados presentes no quarto mandamento caracterizam efetivamente um selo, pois evidenciam plenamente quem é Deus, mostra quais são os “limites” de sua atuação e  garante que Deus é o dono de cada um de nós por ser o nosso criador. Assim, é explicada a escolha de Deus pelo quarto mandamento como Seu selo diferenciador sobre Seu povo. Só a atuação do Espírito Santo no coração permite esse reconhecimento do senhorio de Cristo, mesmo que tal atitude coloque o cristão na contramão do mundo.

GRANDE TRIBULAÇÃO

“Um dos anciãos tomou a palavra, dizendo: Estes, que se vestem de vestiduras brancas, quem são donde vieram? Respondi-lhe: meu Senhor, tu o sabes. Ele, então, me disse: São estes os que vêm da grande tribulação,...” Apocalipse 7: 13-14
            O apóstolo continua descrevendo os salvos e, no texto acima, apresenta uma importante característica que será verificada na vida daqueles que estarão salvos por ocasião da volta de Jesus e que poderão suportar os eventos finais que antecedem a volta do Senhor.
            O texto revela que haverá na identidade do fiel povo de Deus o traço de ter sido perseguido. Naturalmente, essa perseguição é produto da obediência a Deus. “A todos, os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos, faz que lhes seja dada certa marca sobre a mão direita ou sobre a fonte, para que ninguém possa comprar ou vender senão aquele que tem a marca, o nome da besta ou o número do seu nome.” (Ap 13: 16 -17) O texto acima apresenta todas as classes de pessoas recebendo sob imposição a marca da besta. Esta imposição restringe a liberdade de comprar e vender para aqueles que rejeitam receber a marca sobre a mão direita (representando o trabalho) e sobre a fronte (representando a consciência), caracterizando assim uma real perseguição sobre os que se mantiverem fiéis a Deus, rejeitando a marca da besta.
            A pergunta que surge, então, nesse momento é: o que é a marca da besta? A resposta a essa questão será clara se entendermos que Satanás é o grande contrafator. Ou seja, se o selo de Deus é a obediência ao quarto mandamento, que se refere à observância do sábado, que é um dia da semana, a marca da besta precisa ser a obediência a um mandado que se refira a um dia, neste caso, o domingo. Apocalipse 14:8 diz: “Caiu, caiu a grande Babilônia que tem dado a beber a todas as nações do vinho da fúria da sua prostituição.” O texto acima indica que a obra de Babilônia é prostituir as verdades apresentadas na palavra de Deus e isso é exatamente o que o catolicismo romano fez com lei de Deus, no que diz respeito ao quarto mandamento que requer a observância do sábado, modificando para o domingo (Dn 7:25). Conforme Apocalipse 13, essa mudança se tornará em um decreto dominical. Quando isso ocorrer, estará estabelecida a marca da besta. A aceitação da marca da besta resultará em  “benefícios” temporais humanos. Mas essa decisão determinará uma posição definitiva contra Deus, selando o destino dessas pessoas e atraindo sobre elas as sete e últimas pragas. “Se alguém adora a besta e a sua imagem e recebe a sua marca na fronte ou sobre a mão, também esse beberá do vinho da cólera de Deus, preparado, sem mistura, do cálice da sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre, diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro.” (Apocalipse 14: 9-10) O texto esclarece que receber a marca da besta vai resultar em condenação por parte dos infiéis a Deus.
            Na sequência, agora se referindo, ao povo de Deus, o apóstolo João diz: “Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus.” (Apocalipse 14:12) O termo utilizado para se referir aos cristãos é “perseverança”. Naturalmente, a não aceitação da marca da besta resultará em terrível perseguição contra o povo de Deus, mas a consciência de que estão seguindo a Palavra de Deus e que a provação que passam não pode ser comparada “com a glória a ser revelada em nós” (Rm 8: 18) está no foco da visão do remanescente de Deus. Outra certeza que o povo de Deus terá é a de que as pragas e a perdição eterna são muito piores, logicamente, do que a provação por causa da fidelidade a Deus pela qual passarão. Isso faz com que sejam perseverantes em guardar os mandamentos de Deus (porque estão selados pelo Espírito Santo) e continuem crendo em Jesus como seu salvador pessoal (Apocalipse 14:12).

SALVAÇÃO PELA FÉ

            A resposta à pergunta de um dos anciãos sobre quem são as pessoas vestidas de branco revela ainda outro aspecto. Diz ele: são os que “lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro.” (Apocalipse 7:14) Essa característica enfatiza a fé na graça de Deus como único meio de salvação e que, apenas aqueles que forem objetos do sangue do Cordeiro, poderão estar salvos por ocasião da volta de Jesus.
            A imagem que emerge nessa passagem é a da morte do cordeiro pascal. A páscoa foi instituída na ocasião da saída do povo de Israel do Egito, quando por causa da décima praga, os primogênitos de quem não tivesse o sangue do cordeiro nos umbrais da porta da casa, seriam exterminados. Nesse sentido, a páscoa foi o ato de o anjo destruidor saltar a casa na qual havia o sangue na porta.
            O texto de Apocalipse 7:14 diz que aqueles que estarão salvos por ocasião da volta de Jesus, ou seja, os únicos que poderão suportar o caos em que o mundo estará antes do retorno do Senhor, “lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro”, indicando que as pragas e a perdição final não alcançarão essas pessoas, pois elas têm a marca do sangue nos umbrais do seu coração.
O ato de lavar as vestes no sangue de Jesus remete ao perdão dos pecados que os remidos recebem de graça quando aceitam a salvação. A lavagem simboliza a remoção desses pecados e a possibilidade de ter nova vida. O texto acrescenta o fato de que as vestes foram alvejadas no sangue de Jesus. Essa imagem remete à purificação plena que o sangue de Cristo efetua na vida do crente. Isso sugere que a atuação de Deus no cristão não consiste em apenas perdoar-lhes os pecados, eliminando, assim o registro deles, mas também de transformar a vida da pessoa redimida de tal forma que não fique em seu caráter a mancha do pecado. Os que estarão salvos são aqueles que aceitam a salvação pela fé na graça de Deus e que permitem que seu caráter seja completamente transformado. Isso, no entanto, não implica impecabilidade ou uma blindagem plena contra o pecado, pois enquanto estivermos com nosso corpo corruptível estaremos sujeitos a pecar, mas implica que o sangue de Cristo produz contínuo crescimento na graça de tal forma que o caráter vai sendo gradativamente limpo das manchas do pecado.

CONCLUSÃO

            A pergunta desesperada que aprece no final do sexto selo (Apo. 6:17) é respondida claramente no capítulo sete de Apocalipse. Esse capítulo aparece como uma espécie de parênteses entre o sexto e o sétimo selo (volta de Jesus) para responder à pergunta feita no final do capítulo seis.
            A mensagem do capítulo sete é, portanto, uma mensagem de esperança para todos aqueles que desejam permanecer ao lado de Deus e receber a salvação eterna. O texto apresenta de maneira clara as características do fiel remanescente de Deus. O apóstolo lança mão de belíssimas imagens para ensinar que o povo de Deus será selado, será perseguido, mas que só estará salvo por causa do sangue de Jesus.
            O apóstolo evoca uma imagem pascoal: um cordeiro, cujo sangue é derramado para que alguém não morra. Para a pergunta “quem pode suster-se?” que se faz no final do capítulo seis de Apocalipse, a resposta definitiva é: aqueles que permitiram que o sangue do Cordeiro os perdoasse e os transformasse. Falando sobre o mesmo grupo que será salvo, Apocalipse 14:4 faz o seguinte comentário: “São eles os seguidores do Cordeiro por onde quer que vá.” Essa imagem é linda! Somente seguir a Jesus em todos os Seus caminhos poderá sustentar-nos nos terríveis momentos que o mundo passará em breve.
            O quadro que o final de Apocalipse seis apresenta é de desespero por conta do medo que os perdidos terão da ira do Cordeiro. No entanto, Apocalipse sete termina de maneira maravilhosa, descrevendo o estado perene de paz e conforto que os salvos usufruirão “pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes da água da vida. E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima.” (Apocalipse 7:17)
            O mesmo Cordeiro apresenta-se de forma distinta nos dois capítulos: irado no final do capítulo seis e manso no final do capítulo sete. Naturalmente, os ímpios, porque rejeitaram a salvação oferecida de graça, se encontrarão com o Cordeiro irado, enquanto os salvos serão objeto da proteção e bondade do Cordeiro. A questão que surge nesse momento é séria e de resposta pessoal: de que forma a face do Cordeiro será revelada para nós, quando Ele voltar? O desejo de Jesus é salvar a todos e que ninguém peça aos montes que os escondam da “face daquele que se assenta sobre o trono e da ira do Cordeiro.” (Apocalipse 6:16)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Vinícius Mendes de Oliveira
Mestrando em Ciências Sociais na UFRB
Professor de Língua Portuguesa no IAENE
Aluno do 7º período do SALT – IAENE
vimeo@hotmail.com


NO ESPÍRITO DE ELIAS
(Matéria de Capa da Revista Adventista de Maio/2011)

As características da vida e ministério de Elias representam a forma como Deus guiará Seu povo para o cumprimento da missão.


“Eis que enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do Senhor; ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos aos pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição.” Malaquias 4: 5-6


Introdução

O texto acima propõe um interessante parâmetro para o povo de Deus em nossos dias. Malaquias termina seu livro profetizando a respeito da vinda de Elias, antes do aparecimento do Messias. No que diz respeito ao primeiro aparecimento de Jesus, essa profecia se cumpriu em João Batista.

No entanto, a expressão “grande terrível Dia do Senhor” deve ser aplicada também ao segundo aparecimento de Jesus nas nuvens do Céu. Por isso, é importante perceber que a vida de Elias, com todas as nuances que o relato bíblico revela, apresenta-se como um importante paralelo para aqueles que têm de anunciar ao mundo as três mensagens angélicas. Na verdade, tal qual o Elias histórico, o Elias escatológico deveria levar as pessoas à conversão a fim de livrá-las dos juízos reservados para os ímpios.

O problema é que quando se examina a vida de Elias têm-se a impressão que ele é um tipo quase que não humano de profeta. Ser como ele parece algo impossível. Tiago aumenta essa nossa perplexidade diante de Elias:

“Elias era homem semelhante a nós, sujeito aos mesmos sentimentos, e orou, com instância, para que não chovesse sobre a terra, e, por três anos e seis meses, não choveu.” (Tiago: 5:17)
Assim, a Bíblia deixa claro que o padrão que Deus nos deu (Elias) era “sujeito aos mesmos sentimentos” que nós, ou seja, possuía uma natureza pecaminosa, sujeito a cometer atos pecaminosos, mas que, pela fé, foi um vitorioso na vida espiritual e se tornou um poderoso anunciador da justiça em seu tempo, cumprindo a missão que Deus lhe deu. Isso nos permite inferir que Elias representa o caráter do povo remanescente nos últimos dias, de forma que nós deveríamos analisar sua vida fim de extrair de suas vitórias e fracassos lições para o cumprimento da missão da igreja.

Um exame da vida de Elias permite perceber pelo menos três características que marcaram seu ministério: a inconformidade com a pecaminosidade de sua época, sua relevância profética e a depreesão laodiceana que experientou.

A Inconformidade de Elias

Os últimos versículos de I Reis 16 pintam um lamentável quadro do Israel governado por Acabe. O verso 31 diz que Acabe andou nos pecados de Jeroboão, ou seja, adorava a Jeová, utilizando imagens de esculturas para representá-lO, quebrando e levando o povo a quebrar o segundo mandamento, que proíbe o uso de imagens de escultura na adoração (Êxodo 20: 4 e 5). Além disso, os versos 31, 32 e 33 mencionam o casamento de Acabe com Jezabel, a qual introduziu o culto a Baal em Israel, com toda a licenciosidade que isso implicava. “Ao Elias ver Israel aprofundar-se mais e mais na idolatria, sua alma ficou angustiada e despertou-lhe a indignação.” (Profetas e Reis, p. 57)

Esse sentimento que houve no profeta deve ser manisfestado na vida individual e corporativa da igreja remanescente em nossos dias. O apóstolo Paulo é enfático em Romanos 12:2 onde diz “não vos conformeis com este século.” Essa inconformidade deve produzir uma manifesta diferença entre o povo de Deus e o mundo, deixando claro que o fiel reamanescente não sucumbe aos apelos da cultura contemporânea que pressiona as pessoas a assumirem uma forma de vida contrária ao ensino da Palavra de Deus.

A inconformidade de Elias com a apostasia de sua geração o levou a uma busca insistente por vindicação da verdade de Deus.

Tiago 5:17 menciona que Elias orou “com insistência”, para que Deus interrompesse as chuvas. É importante mencionar, neste momento, o fato de que Baal era considerado um deus provedor de chuvas, já que, na mente de seus adoradores, ele era responsável pelos fenômenos naturais. O profeta, insistentemente, orou para que a mentirosa impressão de que Baal estava “abençoando” Israel com a chuva, fosse desfeita. Só havia um meio de conseguir isso: O Senhor Deus “fechar” o céu. Era com esse propósito que Elias orava.

Na verdade a insistente oração do profeta estava baseada em uma exortação divina através de Moisés, quando orientava o povo a respeito de como deveriam se comportar como nação:

“Guardai-vos não suceda que o vosso coração se engane, e vos desvieis, e sirvais a outros deuses, e vos prosteis perante eles; que a ira do Senhor se acenda contra vós outros, e feche ele os céus, e não haja chuva, e a terra não dê a sua messe, e cedo sejais eliminados da boa terra que o Senhor vos dá.”(Deut. 11:16-17)
Nessa passagem, Moisés adverte o povo para o fato de que a idolatria resultaria em uma terrível estiagem. O fato é que nos dias do rei Acabe, embora toda a sua impiedade, havia prosperidade, devido, entre outros fatores, à regularidade das chuvas. Elias insistentemente orou, então, para que Deus interrompesse as chuvas, fazendo o povo lembrar-se da Palavra de Deus, voltando-se a Ele.

Essa passagem da vida de Elias reserva uma importante lição para o povo remanescente: fé na palavra de Deus e oração com base nas promessas apresentadas na revelação são essenciais para o sucesso no cumprimento da missão. Assim, movido por um senso de grande insatisfação com a apostasia predominante, Elias, um profundo conhecedor da vontade de Deus revelada no Pentateuco, pôs-se a orar para que o Senhor interviesse no curso da história, impedindo que a onda de impiedade prosseguisse.

Tal qual Elias fez, devemos fazer hoje. Devemos ter a Bíblia e o Espírito de Profecia como base para nossas ações, em qualquer aspecto de nossas vidas. Não podemos nos acomodar, muito menos nos adequar, aos ditames pecaminosos do mundo. As pessoas precisam perceber com clareza que nos opomos veementemente aos caminhos errados do secularismo e, por nós, serem advertidas contra isso, através do testemunho de nossa vida prática e pregação.

A Relevância Profética de Elias

Nesse momento é importante ter em mente que Elias sabia exatamente o que deveria pregar para o Israel de seus dias e não se desviou de seu foco. Na verdade, Elias era um tipo de pregador que não amenizava o que tinha de dizer. Não pretendia ser visto como politicamente correto, relativizando a verdade que tinha de anunciar em nome de uma política de boa vizinhança. Ele era enérgico e inflexível ao anunciar a verdade. Fazia a sua parte e deixava as consequências com Deus.

Elias diz ao rei acabe: “Tão certo como vive o Senhor, Deus de Israel, perante cuja face estou, nem orvalho nem chuva haverá nestes anos, segundo a minha palavra (I Reis 17:1).

Nas entrelinhas dessa mensagem de Elias estava o tema da adoração. Na verdade, o anúncio desse juízo a Israel era baseado, na advertência de Moisés em Deuteronômio, que orientava o povo a não abandonar a adoração ao Deus verdadeiro, seguindo deuses falsos.

É interessante observar o paralelo que há entre essa mensagem de Elias a Israel e o tom imprecatório e até ameaçador que aparece no conteúdo da terceira mensagem angélica, a qual temos o dever de anunciar ao mundo hoje.

“Se alguém adora a besta e sua imagem e recebe a sua marca na fronte ou sobre a mão, também este beberá do vinho da cólera de Deus, preparado sem mistura, do cálice da sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre, diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro.” (Apocalipse 14: 9-10)
Guardadas as devidas diferenças, as duas mensagens corajosamente apresentam a consequência terrível do pecado da adoração falsa.

Da mesma forma como o Israel do tempo de Elias estava em crise por não saber a quem adorar, coxeando “entre dois pensamentos” (I Reis 18:21) o mundo de hoje está divido entre Deus e os ídolos modernos.

O presente século é tão verdadeiramente um século de idolatria como aquele em que Elias viveu. Pode não haver nenhum altar externamente visível; pode não haver nenhuma imagem sobre que os olhos repousem, contudo, milhares estão seguindo após os deuses deste mundo – riquezas, fama, prazeres e as agradáveis fábulas que permitem ao homem seguir as inclinações do coração não regenerado. (Profetas e Reis, p.177)
Está explícita na Bíblia e no Espírito de Profecia qual é a verdade presente para os nossos dias. O adventismo precisa ser distintivamente específico no que diz respeito a sua identidade doutrinária e deve enfatizar as verdades que lhe são peculiares. Somos um povo que nasceu de um movimento profético que anunciou ao mundo a volta de Jesus. Não devemos abandonar as verdades que compartilhamos com os evangélicos, mas devemos enfatizar, em um “alto clamor”, as verdades que Deus confiou ao povo remanescente, especificamente a terceira mensagem angélica.

Embora houvesse muitas coisas boas e agradáveis que podiam ser pregadas nos dias de Elias, ele sabia de que o povo precisava exatamente ouvir em sua época: o juízo de Deus viria, cumprindo uma profecia de Moisés (Deut. 11:16-17). Essa não era uma mensagem agradável de ser pregada, mas para permanecer fiel a sua legítima vocação profética, Elias não podia desviar seu foco dela. É importante lembrar que no tempo de Elias já havia pregadores (falsos profetas) que falavam o que as pessoas gostavam de ouvir (I Reis 22:11-12).

Comentando a coragem profética de Elias, Ellen G. White aconselha o povo remanescente, falando especialmente aos pregadores:

Há necessidade hoje da voz de severa repreensão, pois graves pecados têm separado de Deus o povo. A infidelidade está depressa tornando-se moda. “Não queremos que Este reine sobre nós” (Lc 19:14), é a linguagem de milhares. Os sermões macios tão frequentemente pregados não deixam a impressão duradoura; a trombeta não dá o sonido certo. Os homens não são atingidos no coração pelas claras, cortantes verdades da Palavra de Deus. (Profetas e Reis, p. 140)
As pessoas devem ser levadas a entender claramente a terrível situação em que se encontram. Nossas verdades distintivas devem receber destaque em nossa pregação. A apresentação dos temas proféticos, em especial os que envolvem a identidade do movimento remanescente, devem ser proclamados em grande voz e sem rodeios.

Quando fizermos isso, no poder e na virtude de Elias, chamando o povo a uma tomada definitiva de posição como fez nosso profeta no monte Carmelo (I Reis 18:21), Deus derramará sobre nós a chuva serôdia, ratificando nossos esforços missionários, como fez com Elias ao fazer descer fogo do céu (I Reis 18:38), e o mundo será iluminado com a veradade (Ap. 18:1). Dessa forma, como ocorreu no Carmelo, os sinceros que hoje estão perdidos no vale da decisão, serão levados a exclamar “O Senhor é Deus!”, depois de verem o poder de Deus, através da coragem do profeta Elias ( I Reis 18: 39).

O episódio do Carmelo foi memorável. O Senhor respondeu com fogo e consumiu a oferta de Elias. Houve uma conversão em massa, mas algo estranho aconteceria no coração do profeta.

O “Laodeceanismo” de Elias

A ira de Jezabel se ascendeu contra Elias. O homem cujo nome significa “Jeová é Deus” temeu a mulher cujo nome fazia uma direta referência a Baal como Deus (I Reis 19: 2 e 3). Ele empreendeu uma fuga que o levou a um dos mais eminentes lugares da história de Israel: Horebe, o monte de Deus.

Por mais que aquele lugar fosse importante para a história de Israel, não era ali que Deus queria Elias. O profeta tinha uma missão e estava fugindo dela. Sem dúvida esse foi um momento de terrível incredulidade, que levou o profeta para dentro de uma caverna.

Na verdade a caverna em que Elias se escondeu representava todo o seu orgulho espiritual. No interiror dela, “Ele respondeu: Tenho sido zeloso pelo senhor, Deus dos Exércitos, porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derribaram os teus altares e mataram os teus profetas à espada; e eu fiquei só, e procuram tirar-me a vida.” (I Reis 19: 10)

O medo de continuar pregando sua severa mensagem levou o profeta à fuga. É interessante observar que Elias fugiu para um lugar sagrado na história de Israel. Horebe era um outro nome para o o monte Sinai, local onde Deus havia dado a Lei ao Seu povo. Embora o Sinai fosse um monte sagrado, não era lá que o Senhor queria que Elias estivesse. Deus queria Elias anunciando a Lei que séculos atrás naquele mesmo monte fora dada ao povo de Israel, a qual eles estavam quebrando. Mas num surto de medo e orgulho espiritual, o profeta esconde-se na caverna, deixando de cumprir sua missão.

É importante a comparação com a atitude de Moisés nesse momento, porque quando Deus sugeriu que o povo que idololatrava no pé do monte fosse destruído a postura dele foi uma linda intercessão em favor daquele povo (Êxodo 32: 11-13). A Bíblia resgistra assim a atitude de Moisés diante da idolatria do povo no pé do monte Sinai: “E, voltando-se, desceu Moisés do monte com as duas tábuas do Testemunho nas mãos” (Êxodo 32:15). Moisés desceu do monte Sinai com a Lei para que o povo se voltasse para Deus. Elias subiu para o monte, deixando o povo sem ouvir sua voz profética.

Uma terrível tentação para o adventismo contemporâneo é querer desculpar a sua omissão missionária, fugindo para o “Horebe” de um triunfalismo sem lugar. Deitarmo-nos no “berço esplêndido” de uma igreja doentiamente voltada apenas para si mesma e esquecermos que as pessoas lá fora precisam de nós é a mais séria tentação com a qual temos que lidar como povo.

O inimigo tem trabalhado duro para que não preguemos nossas mensagens distintivas ao mundo e fiquemos voltados para nós mesmos, com programações que servem apenas para nos “engordar” espiritualmente em “banquetes” laodiceanos nos quais Jesus é deixado à porta batendo, convidando-nos a levar nossa mensagem às pessoas que estão morrendo de fome espiritual no mundo (Ap. 3:20). Enquanto o mundo perece sem esperança, nós nos “fartamos” da mensagem que é a única esperança para essa geração. O pecado laodiceano é claramente apresentado por Deus nas seguintes palavras:

“Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca; pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre cego e nu.” (Apocalipse 3:15-17)

A acusação de Deus a Laodicéia dá conta de seu orgulho espiritual, o qual produz uma mornidão letárgica e falta de zelo missionário, que enoja ao Senhor. Diz a senhora White:

“A única esperança para os laodiceanos é uma clara visão de sua condição diante de Deus, o conhecimento da natureza de sua enfermidade. Nem são frios nem quentes; ocupam uma posição neutra e, ao mesmo tempo, lisonjeiam-se de não necessitar de coisa alguma. A Testemunha Verdadeira aborrece essa mornidão. Causa-Lhe desgosto a indiferença dessa classe de pessoas. (...). Não se empenham inteiramente e de coração na obra de Deus, identificando-se com seus interesses; mas se mantêm afastados, e estão prontos a deixar seus postos quando os interesses mundanos, pessoais o exijam.” (Testemunhos Seletos, Vol. 1, p. 476 e 477)

Está evidente nas linhas acima qual é o motivo da insatisfação de Deus com Seu povo em nossos dias: falta de empenho missionário, indiferença com a necessidade espiritual das pessoas e lisonja a respeito de sua condição. Esse é o espírito laodiceano em essência. É por isso que a serva do Senhor diz que “A única esperança para os laodiceanos é uma clara visão de sua condição diante de Deus, o conhecimento da natureza de sua enfermidade.” O conselho em Apocalipse é claro, portanto: “... que de mim compres (...) colírio para ungires os olhos , a fim de vejas” (Apocalipse 3: 18).

Na escuridão da caverna, Elias também precisava enxergar a condição em que estava. Escondido, sozinho e considerando-se orgulhosamente o único fiel em Israel, Elias não conseguia ver que, embora Israel realmente estivesse apostado, sua omissão o colocava também em uma pecaminosa situação.

No entanto, I Reis 19:9 apresenta um lindo detalhe que às vezes nos passa despercebido. Deus diz a Elias, quando o profeta estava no interior da caverna: “Que fazes aqui, Elias? Deus se dirigiu à entrada da caverna e convidou o profeta a sair de lá. Observe o advérbio de lugar que Deus usou: “aqui”. Esse termo indica que o Senhor entrou na da caverna onde Elias estava com o objetivo de tirá-lo dali. Se não estivesse lá, Ele poderia ter dito: “Que fazes aí, Elias?”, mas não. Deus resolveu ir à caverna onde Seu servo estava para tirá-lo de lá, curando-o de sua depressão laodiceana. Graça maravilhosa!

Essa atitude de Deus diante de Elias na caverna é muito semelhante à postura de Jesus diante dos laodiceanos: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele e ele comigo.” (Apocalipse 3:20) O fato de Jesus está à porta, batendo, indica que os laodiceanos, orgulhosos de sua condição espiritual, estão deixando fora de suas vidas a Jesus, O qual representa os necessitados materiais e espirituais que vivem à margem do evangelho (Mateus: 25:40).

O método que o Senhor utilizou para curar a depressão “laodiceana”de Elias, foi:

“Vai, volta ao teu caminho para o deserto de Damasco e, em chegando lá unge, a Hazael rei sobre a Síria. A Jeú, filho de Ninsi, ungirás rei sobre Israel e também Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá ungirás profeta em seu lugar. Quem escapar à espada de Hazael, Jeú o matará; quem escapar à espada de Jeú, Eliseu o matará.. ” (I Reis 19: 15-17)
É dessa forma que Deus também pretende curar nosso espírito laodiceano. Ele está à porta de nossa caverna, batendo e nos convidando à ceia espiritual que alimentará o mundo com a última mensagem de advertência a qual o Senhor deseja que anunciemos. Ele insta-nos com o verbo “vai”, o mesmo que aparece na célebre comissão evangélica “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século.” (Mateus 28:19 e 20). O verbo ir, foi usado por Deus para Elias no modo imperativo na segunda pessoa do singular (vai), indicando uma ordem pessoal para ele, enquanto que na grande comissão evangélica de Mateus 28:19 e 20 o verbo também está no imperativo, mas na segunda pessoa do plural, indicando que esta ordem é para todos aqueles que são discípulos de Jesus. Só indo e cumprindo nossa missão, somos imunizados contra a mornidão espiritual profetizada a respeito da igreja de Laodicéia. Como o “Elias” para o tempo final podemos ouvir da boca de Deus um sonoro “VAI” individual ou mesmo um “IDE” corporativo.

Conclusão

O fato é que Elias foi e cumpriu aquilo que Deus esperava dele. Ungiu Hazael rei sobre a Síria, Jeú, rei sobre Israel e Eliseu como profeta em Israel. Todas essas atitudes eram politica e espiritualmente necessárias naquele momento para que a reforma iniciada por Elias tivesse continuidade.

O Senhor ainda esclarece ao profeta algo que ele não sabia, com o propósito de confortá-lo e animá-lo: “Também conservei em Israel sete mil, todos os joelhos que não se dobraram a Baal, e toda a boca que não o beijou. ” (I Reis 19:18). Essa explicação de Deus a Elias pode ser relacionada a expressão “povo meu” que aparece em Apocalipse 18:4 “Retirai-vos dela, povo meu”. No mundo há milhares de pessoas sinceras que nunca ouviram as advertências derradeiras de Deus a este mundo e que, quando ouvirem, se unirão ao povo de Deus, antes que a porta da graça se feche. São os sete mil que não dobraram conscientemente seus joelhos a Baal e vivem fiéis de acordo com a luz que possuem. Elas só precisam ouvir. Deus deseja profundamente nos usar para isso.

Elias reabilitou-se de sua condição espiritual e continuou servindo ao Senhor. Após o Seu servo cumprir sua missão, Deus o tomou para Si, fazendo-o “um tipo dos santos que estarão vivendo na Terra por ocasião do segundo advento de Cristo, e que serão ‘transformados num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta (1 Co 15: 51, 52) sem provar a morte.” (Profetas e Reis, p. 114).

Elias, dessa forma, passou a fazer parte do seleto grupo de seres humanos que vivem no Céu, como representantes de todos aqueles que um dia estarão lá. Elias portanto tipifica aqueles salvos que estarão vivos e vivenciarão os eventos finais, apresentando, resolutamente a última mensagem de advertência a esta Terra.

Essa recompensa- seja para aqueles que permanecerem vivos, seja para aqueles que serão tirados antes - incluirá todos aqueles que viverem “no espírito e poder de Elias” (Lc 1:17)